terça-feira, 27 de maio de 2008

Delírios

Ele surfava no dorso daquele pássaro, num vôo suave e malabarístico. Um desenho de traços infantis, em preto e branco, em linhas, curvas e movimento. No meu sono profundo, sou mera espectadora deste balé aéreo. Admiro a sincronia entre homem e pássaro.

Desperto ainda no ar, uma sensação de leveza no corpo. Sem abrir os olhos, a lembrança da noite passada se funde ao sonho. Penso nele em movimento, em linhas e curvas. Agora não sou só uma mera espectadora, mas o pássaro deste balé cheio de harmonia e desejo.

Éramos corpos sem identidade, num vôo único ao sabor do vento. O sopro de sua boca na minha orelha e a mistura do batucar dos corações em delírio ditava um saboroso ritmo.

Nenhuma palavra.

Vou me dar mais alguns segundos para sair deste estado letárgico e voltar a me misturar na rotina de nomes, funções e vozes. Meus lábios se abrem primeiro em um discreto sorriso. Meu olhar vai ser diferente.

Pareço flutuar entre o chão e a realidade. Meus sentidos estão límpidos. A consciência sem nuvens. Dentro de mim ainda restam fluidos e espasmos. Eternizo o quanto posso aquela emoção.

Minha mente se aquece naquele vôo silente. Um presente da vida, guardado no segredo da minha história. Posso esquecer seu rosto. Nem sei o tom de sua voz. Impossível tirar o seu sabor de minha boca ou seu perfume de minha pele.

Para que palavras?

de cecilia cavalcanti - 2006

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Viagem Polônia-Bélgica-Holanda

Cheguei....


Uma viagem do mundo medieval aos horrores do holocausto.
Da arte e da história.









Dos monumentos que insistem em não nos fazer esquecer da época em que o homem se transfigurou de diabo e,
em nome da pureza, escreveu uma dos mais brutais dos tempos.
Chorei ao sentir a morte nas câmaras de gás...














Estar em todos os tempos: do clássico ao mais contemporâneo homem, com seus skates e bicicletas disputando espaço nas praças com charretes e pessoas.
A exuberância das Ferraris e Porches nas pequenas vielas de pedra.
A velhice assistida e os malucos belezas que ainda existem por aí.







Degustar nas cervejarias tradicionais e achar engraçado e inusitado a maconha liberada nas ruas e bares.



Encontrar num mesmo lugar a reverência à Igreja e à ciência




Mas, são nas telas da arte mais soberana que me desfaço em prazer e delírio. Perceber que mais que romper com as barreiras do espaço e do tempo, esses nobres pintores, quebraram com a lógica para pintarem movimento, emoção, sensualidade, todos os tempos e espaços num só plano.

Das grandes telas de Rembrandt,de luz, sombra e movimento, a surpresa ficou nos traços simples e cotidianos de Vermeer (1632-1675). Girl with a Pearl Earing não estava lá, mas é impossível não ver as reproduções e ver naquele olhar suas figuras femininas....



Claro, teve também as pinceladas sensualmente loucas de Van Gogh. Êxtase nos girassóis ou nos corvos. Perceber nas paisagens as fontes de inspiração e técnica...














Andar por aí, sair sem rumo, se encontrar do outro lado de qualquer rua, de um canal, de um bar.











Experenciar um frio que não conhecia e se deixar cobrir de flocos de neve pelo prazer da novidade.
Perceber as coisas funcionando, andar por ruas limpas, ver gente saudável todo o tempo, falar várias línguas, não ter pátria.
Mas voltar pra casa. Sempre. Por que só aqui, sou reconhecidamente eu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

LOS DOS REYES Y LOS DOS LABERINTOS


Cuentan los hombres dignos de fe (pero Alá sabe más) que en los primeros días hubo un rey de las islas de Babilonia que congregó a sus arquitectos y magos y les mandó construir un laberinto tan complejo y sutil que los varones más prudentes no se aventuraban a entrar, y los que entraban se perdían. Esa obra era un escándalo, porque la confusión y la maravilla son operaciones propias de Dios y no de los hombres. Con el andar del tiempo vino a su corte un rey de los árabes, y el rey de Babilonia (para hacer burla de la simplicidad de su huésped) lo hizo penetrar en el laberinto, donde vagóafrentado y confundido hasta la declinación de la tarde. Entonces imploró socorrodivino y dio con la puerta. Sus labios no profirieron queja ninguna, pero le dijo al rey de Babilonia que él en Arabia tenía otro laberinto y que, si Dios era servido, se lo daría a conocer algún día. Luego regresó a Arabia, juntó sus capitanes y sus alcaides y estragó los reinos de Babilonia con tan venturosa fortuna que derribó sus castillos, rompió sus gentes e hizo cautivo al mismo rey. Lo amarró encima de un camello veloz y lo llevó al desierto. Cabalgaron tres días, y le dijo: "¡Oh, rey del tiempo y sustancia y cifra del siglo!, en Babilonia me quisiste perder en un laberinto de bronce con muchas escaleras, puertas y muros; ahora el Poderoso ha tenido a bien que te muestre el mío, donde no hay escaleras que subir, ni puertas que forzar, ni fatigosas galerías que recorrer, ni muros que te veden el paso." Luego le desató las ligaduras y lo abandonó en mitad del desierto, donde murió de hambre y de sed. La gloria sea con Aquél que n muere.

Jorge Luis Borges
Foto Deserto do Saara - Rio Nilo (Cecilia Cavalcanti)